Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A valsa do reencontro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.10.08

Há a valsa do encontro. E há a valsa do reencontro.

 

Before Sunset: ambos rodopiam, primeiro filosofam, depois tornam-se mais poéticos, sonhadores, nostálgicos... a seguir brincam, ironizam, o riso ganha outro sentido... e tudo num dia e numa noite.

Também será assim no reencontro. Before Sunrise: a filosofia, o lado poético e sonhador, a nostalgia e a cumplicidade... e a descoberta incrível de que ainda são os mesmos, a magia está lá, uma mistura de alegria e tristeza, de receio e alívio, de revolta e compreensão.

É comovente ver como a valsa dos encontros e dos reencontros é universal. Como os passos, inicialmente hesitantes, se vão harmonizando, ganhando confiança, ritmo, asas.

É talvez por isso que, ao vê-los valsar, não nos sentimos intrusos. Identificamo-nos com aquela valsa.

 

Voltando ao encontro. Um dia e uma noite em Viena.

Será possível que um encontro, mesmo fora do nosso território e dos nossos hábitos, ou precisamente porque é fora do nosso território e dos nossos hábitos, nos toque assim tão profundamente?

Lembro-me de um outro filme assim, The Clock, só que aí eles não se separam, adiam a hora da separação, passam o filme a adiá-la aliás, e por pouco se desencontram, mas acabam por se reencontrar perto do tal relógio, onde se tinham conhecido. Para não voltar a desencontrar-se.

Aqui a ligação é a mesma, há uma chamazinha que se insinua logo, e pior!, uma ternura, o laço mais difícil de quebrar, porque nasce num lugar que tem raízes profundas na infância, nos sonhos e valores mais acarinhados.

Sim, como no The Clock, até nos pormenores: a simplicidade de uma conversa, de uma caminhada a pé, uma companhia agradável, emoções e sentimentos genuínos que se revelam, um olhar, um sorriso, uma entoação de voz...

Neste Before Sunset os dois filosofam mais, não páram de filosofar aliás. Deambulam pela cidade como se o tempo fosse eterno. Prolongam a conversa pela noite. A noite torna-os poéticos. A cidade surge-lhes mágica. Terminam a noite num parque, a olhar as estrelas. De manhã despedem-se na estação de comboio. Comboio: metáfora terrível para a vida, para o seu encontro e para o seu desencontro. Prometem voltar a encontrar-se daí a seis meses. Sim, como naquele filme... An Affair to Remember...

 

Interrompo aqui entre o desencontro e o reencontro... Ah, o reencontro...

 

O seu reencontro em Paris, 9 anos depois...

Ficamos com curiosidade: quem falhou ao encontro? Ela? Ele? Os dois?

Antes de saber quem falhou ao encontro, acompanhamo-los pelas ruas de Paris. E de novo, tal como em Viena, a conversa surge, natural. Conversam sobre tudo, as suas actividades, os seus hábitos, os seus valores, por onde andaram e o que andaram a fazer...

Sim, tal como em Viena, fartam-se de falar e de filosofar. De certo modo, é uma forma de reduzir a ansiedade e as dúvidas.

No início só falam das suas vidas e de como as levaram para a frente: ela, activista na área ambiental, ele, como escritor.

A pouco e pouco aproximam-se dos temas mais pessoais: os afectos, emoções, sentimentos. O que o seu encontro em Viena significou nas suas vidas. O que seria se não se tivessem desencontrado... Como sentiram esse desencontro. Como o (não) superaram.

E ficamos a saber... que foi ela que falhou ao encontro combinado. A avó morrera por esses dias, em Budapeste. E também ficamos a saber que ele teve uma trabalheira para proporcionar uma hipótese, ainda que remota, de se reencontrarem um dia.

Tal como uma valsa, que ela lhe irá cantar porque ele insiste em ouvi-la cantar, vão rodopiando, rodopiando em círculos...

Ela dir-lhe-á que no fundo é a mesma, que as pessoas não mudam no essencial. E nós vemos isso. Eles não mudaram assim tanto desde o seu encontro.

 

Há cenas verdadeiramente poéticas e comoventes:

- No jardim ele brinca com a ideia de aproveitar os últimos minutos a amá-la furiosamente. Ela finge não perceber como ele se tenta aproximar e vai mantendo barreiras subtis.

- No barco turístico pelo Sena ela dir-lhe-á que lhe doem sempre as separações porque, para ela, as pessoas são insubstituíveis. Mesmo e sobretudo pelos pequenos pormenores. Com ele, tinha sido a forma como o sol tinha brilhado na sua barba ruiva, no queixo, quando se despediram no comboio.

- Ainda no barco e à saída, quando se deslocam para o carro que o levará ao aeroporto, e depois ao longo desse percurso, ele falar-lhe-á da mulher e do filho. De como é pelo filho que procura manter a estabilidade. Que é com alguma pena que vê o amor fugir-lhes, como muitos casais em que o amor passa a ser pouco frequente, como se começam a distanciar... Que desejaria que tanto ele como a mulher fossem felizes... Ela fita-o, atónita. A imagem que tinha dele era a de um homem feliz: Pensamos sempre que só nós somos infelizes.

- E ainda nesse percurso de carro, ela confessará finalmente lembrar-se que se tinham realmente amado no parque, duas vezes, a olhar as estrelas.

E tal como em The Clock a despedida adiada, adiada, adiada. Mas ele insiste em ouvi-la cantar.O amor não é domesticável, isso ficamos a saber.

O difícil é vivê-lo, sem o querer domesticar.

O amor é uma espécie de milagre, isso também ficamos a saber. Uma probabilidade num milhão de se encontrarem, e depois muito mais provável o desencontro.

E poucos se reencontram assim. Mesmo que consigam voltar a encontrar-se, já são outros, são diferentes, a vida e os afectos passaram por eles, já não se conseguem reconhecer um no outro.

O amor também pode passar ao lado dos distraídos. E a vida e o mundo distrai-nos sempre.O amor é uma valsa. No encontro e no reencontro.Sabemos que o encontro e o reencontro é só deles. Mas também é nosso, de certo modo.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:27

A inteligência original e as suas infinitas possibilidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.10.08

 

Pensava que a única grande contrariedade de Beethoven tinha sido a surdez. Mas não.

Uma infância de maus tratos (um pai violento).

Uma juventude em que revela o seu carácter obsessivo, possessivo, ciumento e cruel.

Até à velhice são paixões, desencontros amorosos, decepções, sofrimento, humilhações.

Conhecerá a doçura. Mas muito mais tarde. E não por muito tempo.

 

Immortal Beloved fala-nos essencialmente de um amor secreto de Beethoven. Uma das mulheres que passaram na sua vida terá sido por ele amada de forma intensa, excessiva, inteira.

O filme está construído de uma forma engenhosa. Há uma personagem que serve de elo de ligação com o passado. E há uma carta para uma única destinatária.

As mulheres da vida de Beethoven revelam, curiosamente, diferentes dimensões da natureza feminina: a mulher-companheira e que procria; a mulher sensual e sofisticada; a mulher forte e terna, porto-de-abrigo.

Também engenhosa a forma como as suas peças musicais acompanham as cenas mais significativas, as emoções e os sentimentos envolvidos.

 

Mas não é esta a minha parte preferida do filme. Foi Beethoven-criança, a sua incrível inteligência original, que não tem limites nem fronteiras.

Essa qualidade universal da inteligência que geralmente se perde pelo caminho da domesticação e normalização social. E no caso do nosso Beethoven... da estupidez e violência. Que ele vence. O que, só por si, é um verdadeiro milagre.

E isso é doloroso de ver. O filme dá mesmo a entender que a sua surdez terá sido provocada pelos maus tratos do pai e que se terá agravado com a idade.

Registei para sempre a correria nocturna da criança pela floresta, que aqui nos surge como acolhedora, até chegar a um lago e nele entrar e ficar a flutuar enquanto fixa os pontos luminosos de um universo infinito...

É essa imagem que me fica do filme. Uma criança a flutuar no lago e a fixar um céu de pontinhos luminosos.

É esse Hino à Alegria que nos leva de imediato a um tempo-espaço onde não havia limites nem fronteiras nem violência. A um tempo-espaço em que estamos todos estranhamente irmanados por uma inteligência universal que tudo envolve e que se expande.

É também para esse tempo-espaço que Beethoven, na sua surdez desesperada, consegue transportar-se. Beethoven mantém essa inteligência original. Esse é o verdadeiro milagre. Essa inteligência original vence a surdez, a violência, as suas tempestades interiores.Foi assim que eu o vi.É que a vida e a nossa terrível natureza está sempre a puxar-nos para a mediocridade e a negação dos sonhos. É preciso puxar ao contrário, contrariar o conformismo. E fixar o olhar no infinito.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:19

O valor intrínseco de cada indivíduo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.10.08

 

Um grupo de vadios, inadaptados ou excluídos (como agora estranhamente se diz), uma zona de fábricas de conserva abandonadas, uma casa de meninas onde diversos espécimens vão dar à costa, um rebelde estudioso de biologia marinha em regime independente, que anda a preparar um livro que nunca termina... John Huston como Narrador... e tudo filmado em estúdio... Mais um produto mágico, uma síntese feliz... Cannery Row...

John Huston, que sempre compreendeu os inadaptados, aqui a enlevar-se com o texto magnífico de John Steinbeck.

 

Se observarmos este grupo de vadios vemos que revela qualidades que dificilmente encontramos nos socialmente adaptados. Não acreditam? Afecto genuíno, lealdade, amizade, protecção do mais frágil, coesão de grupo. Ainda que os seus métodos sejam... enfim, muito discutíveis.

Revelam, além disso, uma surpreendente capacidade de organização: passam a vida a angariar uns tostões em preparação de festas e nem precisam de grandes razões para festejar. O resultados dessas festas é invariavelmente uma bebedeira monumental e a destruição da casa-laboratório do Doc...

Este grupo de vadios, além destas qualidades tão mal encaminhadas, pratica ginástica matinal (muito aldrabada) e ainda programa de vez em quando uns jogos de baseball com as meninas da Casa.

Ah, e faltam aqui duas personagens importantíssimas para completar a história: o Visionário e a Rapariga. É até com eles que a história começa: a Rapariga, de mala na mão, chapelinho na cabeça e longo casaco (anos 40), surge naquele lugar improvável e vê, numa rocha à beira-mar, um saco de papel. Aproxima-se. Pela sofreguidão com que pega num pão vemos que vem esfomeada. O Visionário aborda-a. A Rapariga atrapalha-se e volta a colocar o pão no saco, constrangida. O Visionário então diz-lhe esta coisa extraordinária, que Deus cuida dele, e que coma à vontade.

Só mais tarde a Rapariga, que é muito observadora, verá que Deus é o Doc que, subrepticiamente, coloca lá os sacos para o Visionário.

Entretanto, a Rapariga, que não encontra trabalho por ali em lado nenhum, nem mesmo no único café, acabará por ir parar à Casa das Meninas. Inicialmente relutante. Não parece talhada para aquele papel. A Madame, consciente disso, desafiará o Doc a encaminhá-la para outra solução.

 

Cenas fenomenais:

- A preparação do Doc antes de ir jantar com a Rapariga, em que terá de voltar a casa vestir-se a rigor para não contrastar com ela;

- Toda a cena do jantar a dois, descrita e acompanhada pela voz encantatória de John Huston;

- A dança acrobática (loucos anos 40) do Doc e da Rapariga, esta vestida de Pastorinha (para estimular as fantasias dos visitantes);

- A preparação da festa para o Doc, pelo nosso grupo, que inclui uma verdadeira "caça às rãs" para vender e angariar os preciosos tostões;

- O jogo de baseball, vadios e meninas, em que o Visionário revela todo o seu talento para o desporto;

- Os dilemas éticos de Hazel, o vadio mais ingénuo, o mais generoso também, e o mais protegido pelo grupo; e a sua terrível decisão-limite, para ajudar um amigo em sofrimento...

 

Para chegar à ideia que dá razão de ser ao título, "o valor intrínseco de cada indivíduo", ainda preciso de pedalar mais um pouco. Agradeço desde já a paciência dos viajantes que toleram as minhas interrupções... Às vezes inicio caminhos a pique para os quais não tenho o fôlego necessário... pelo menos para os trepar de uma só vez...

 

Estes Vadios não incomodam ninguém. E como diz a Madame à Rapariga, não gostam de falar do passado. Se tentarmos ser objectivos, veremos que há incluídos e adaptados a fazer mais estragos sociais do que estes Rapazes (the boys). John Steinbeck (e também John Huston) olham a vadiagem sem qualquer interferência moralista, apenas como um facto, uma realidade.

Quando conseguirmos olhar cada indivíduo pelo seu valor intrínseco, pela sua própria existência, esta distinção incluídos-excluídos nem se coloca. Todos serão incluídos, pelo simples facto de existirem. Mas o facto de existirem não obriga ninguém a seguir os passos miméticos de uma sociedade que até se pode considerar, no mínimo, doente e decadente. Porque numa sociedade saudável, ou que disso procura aproximar-se, cada indivíduo será respeitado por si mesmo. E ao ser respeitado por si mesmo, mais facilmente encontrará o seu lugar e o seu percurso natural. Não haverá lugar para moralismos, paternalismos, imposições, porque já não farão sentido.

 

Mas há em Cannery Row outro ângulo interessante: o valor responsabilidade. O Doc sente-se responsável pelo Visionário. Ninguém precisa de lho lembrar. Assume essa responsabilidade como um valor próprio da sua natureza. E também em relação à Rapariga, o Doc descobre a seu tempo, que ela é muito mais importante na sua vida do que teria desejado no início. É ultrapassado pelos acontecimentos. Quando ganha coragem para lho confessar, vê-a distante, implacável. E  percebe dolorosamente que a perdeu. E que há erros na vida que simplesmente não conseguimos consertar.

A conversa na Caldeira (a nova habitação da Rapariga, que agora já trabalha no café), é verdadeiramente comovente. Claro que só mesmo a intervenção de alguém como Hazel poderá compor este desencontro. Só alguém com uma infinita ingenuidade poderá descobrir a solução-limite para o sofrimento do Doc. A Rapariga tinha-lhe dito que lhe levaria uma sopa se estivesse doente ou com um braço partido. O destino do Doc fica inscrito nestas palavras casuais da Rapariga.

Mas voltando ao valor "responsabilidade pelo amigo": o Doc mal sabe tomar conta de si próprio! É um cientista autodidacta e rebelde, que vive sozinho numa casa-laboratório rodeado de espécimens marinhos. E no entanto... cuidará do amigo até ao fim. É mais do que poderemos encontrar na sociedade socialmente organizada, não acham?

Mas trata-se de John Steinbeck! O autor d' As Vinhas da Ira que John Ford traduziu para a linguagem do Cinema naquele impossível preto e branco, naquela atmosfera única! E o autor, igualmente, de um dos livros mais perturbadores que eu já li: A um Deus Desconhecido. Alguém me sabe dizer se já houve alguém a tentar traduzi-lo para linguagem do Cinema? Dava um filme mágico!

 

 

 

Obs.: É deste filme uma das minhas lines preferidas. Depois da dança acrobática, a Rapariga que é uma fanática de baseball, fala dessa época de glória do Doc quando era uma estrela do baseball, não entendendo porque largou tudo assim, repentinamente, e deixa cair no meio da conversa o nome Louis Delano. O Doc senta-se no sofá e diz incrédulo e escandalizado: Eih! Louis Delano!? Quem tu foste logo escolher para ser o teu herói!? É uma das lines que utilizo frequentemente sempre que vejo alguém ser colocado num qualquer pedestal sem qualquer mérito próprio.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:34


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D